Domingo, 26 de Julho de 2026 às 22:38
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Angela Davis na Flip: Ativista cita Conceição Evaristo, Lélia Gonzalez e critica gentrificação e racismo ambiental em Paraty

Angela Davis na Flip: Ativista cita Conceição Evaristo, Lélia Gonzalez e critica gentrificação e racismo ambiental em Paraty

A renomada ativista e pesquisadora Angela Davis foi um dos grandes destaques da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em um evento público e gratuito realizado no Sesc Caboré. A conversa com a jornalista Flávia Oliveira, parte da programação paralela do festival, ocorreu no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, celebrados em 25 de março.

Davis expressou a profunda conexão com o passado escravocrata de Paraty, sentindo a presença dos ancestrais que desempenharam um papel fundamental durante o período da escravidão. Ela ressaltou a dimensão cultural da luta pela liberdade do movimento negro, evidenciada na arte, música e literatura, que permitem alcançar outras dimensões de compreensão e expressão.

A ativista denunciou veementemente os processos de gentrificação e racismo ambiental em curso na cidade. Conforme relatado por ela, a especulação imobiliária tem levado à expulsão de moradores de comunidades pobres de suas terras ancestrais, em busca de lucro. Essa preocupação com o futuro e o meio ambiente é compartilhada pelos jovens locais, que temem não ter um planeta para viver. A informação foi divulgada durante sua participação na Flip.

Angela Davis exalta Conceição Evaristo e o conceito de “escrevivência”

Em sua fala, Angela Davis expressou grande satisfação em dividir o palco com a escritora brasileira Conceição Evaristo, que estava presente na plateia. Davis comparou a relevância de Evaristo a figuras como Nina Simone e Toni Morrison, ambas norte-americanas, e enalteceu o conceito de “escrevivência” criado pela autora mineira.

A ativista destacou que levou muito tempo para que a importância das histórias contadas por pessoas negras fosse reconhecida. Ela citou Toni Morrison, a primeira mulher negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1993, para afirmar que a “experiência branca não é universal”, ressaltando a necessidade de validação das narrativas negras.

Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez: Inspirações para Angela Davis

Durante o debate, mediado pela jornalista Flávia Oliveira, Angela Davis comentou sobre a importância da pesquisadora brasileira Beatriz Nascimento. A ativista destacou a frase “eu sou atlântica” de Nascimento, que evoca um sentimento de pertencimento a um mundo vasto e interconectado.

Davis também celebrou a autora e ativista brasileira Lélia Gonzalez, uma referência em estudos de gênero, raça e classe. “Eu amo a Lélia Gonzalez”, declarou, admirando o conceito de “Amefricanidade” de Gonzalez, que reconhece a interdependência entre a luta negra e a luta indígena em qualquer parte do mundo. A ativista ressaltou ainda a crítica de Lélia Gonzalez ao capitalismo, especialmente na “primeira era dos trilionários”, que exploram a terra sem se importar com as consequências.

Crítica ao capitalismo e alerta contra o fascismo

Angela Davis fez uma forte crítica ao sistema capitalista, apontando-o como um dos principais responsáveis pelas dificuldades enfrentadas para uma habitação justa e equilibrada no planeta. Segundo ela, a exploração e destruição não afetam apenas os recursos naturais, mas também os próprios seres humanos, com o capitalismo sempre buscando lucrar mais.

A ativista também comentou sobre os prejuízos causados pela ascensão de governos autoritários, afirmando que o povo é mais forte que o fascismo. Ela alertou sobre o emergente fascismo na Europa, Estados Unidos e América Latina, e a necessidade de impedir que candidatos alinhados a essa ideologia cheguem ao poder, citando as eleições no Brasil como exemplo.

Luta pela redução da jornada de trabalho e inclusão universitária

A redução da jornada de trabalho e a inclusão de pessoas negras nas universidades foram outros temas abordados por Angela Davis. Ela defendeu que a redução da jornada permitiria mais tempo de lazer e acesso à cultura para os trabalhadores, mencionando que alguns países europeus já implementam essa prática.

Davis relembrou sua primeira visita ao Brasil, observando a pouca presença de negros nas universidades. Ela celebrou as mudanças palpáveis que testemunhou no desenvolvimento de um novo sistema universitário na Bahia, enfatizando que essas conquistas devem ser celebradas, mas que a luta deve continuar.

O poder da luta coletiva e a resistência à violência

Angela Davis exemplificou o poder da luta coletiva ao relatar o período de sua prisão. Ela atribuiu sua libertação não apenas às suas ações, mas à mobilização popular que impediu que a pena de morte fosse aplicada. A ativista destacou a importância da união das pessoas além das fronteiras para impedir a violação de direitos.

A ativista também abordou a violência contra a mulher, distinguindo a violência íntima daquela cometida pelo Estado, como a violência policial contra mulheres encarceradas. Ela mencionou a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, e ressaltou que mulheres negras, e especialmente mulheres trans negras, sofrem índices ainda maiores de violência, clamando pela quantificação e enfrentamento dessa realidade.

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