Carnaval como refúgio: a folia que cura e acolhe cuidadoras no Distrito Federal
Em meio à vibrante atmosfera pré-carnavalesca de Brasília, um grupo especial encontra na festa não apenas diversão, mas um poderoso caminho para o autocuidado. O coletivo Filhas da Mãe, formado majoritariamente por mulheres que dedicam anos ao cuidado de familiares com doenças demenciais, como o Alzheimer, celebra a vida e a resiliência através da folia.
A professora carioca Carmen Araújo, 59 anos, exemplifica essa força. Cuidando do pai há 15 anos, ela entende a importância vital de momentos de leveza e alegria. Para Carmen, que integra o Filhas da Mãe desde sua fundação em 2019, o carnaval é uma oportunidade de se reconectar consigo mesma e com outras mulheres que compartilham experiências semelhantes.
“Se a gente não se cuidar, adoecemos também”, ressalta Carmen, cujos olhos brilham com a emoção de quem encontra na música e na dança um alívio para a rotina de dedicação. O coletivo, que se transforma em bloco carnavalesco durante a folia, oferece um espaço seguro para que essas heroínas do dia a dia possam celebrar a vida e fortalecer seus laços de apoio mútuo, conforme informações divulgadas pelas integrantes.
A Rede de Apoio que Nasceu da Dor e Virou Festa
A psicanalista Cosette Castro, uma das fundadoras e diretoras do Filhas da Mãe, explica que o coletivo surgiu da própria vivência com a sobrecarga do cuidado. Após dedicar 10 anos ao cuidado de sua mãe, acometida pelo Alzheimer, Cosette percebeu a lacuna na atenção dada aos cuidadores. “As pessoas falam muito de remédio, de como cuidar. Mas ninguém olha para nós que estávamos cuidando e com sobrecarga”, reflete.
O Filhas da Mãe atende atualmente cerca de 550 pessoas em projetos voluntários, oferecendo apoio virtual e presencial. A iniciativa foca na promoção da saúde do cuidador e na visibilidade das necessidades desse público, além de incentivar o diagnóstico precoce de doenças demenciais. A psicanalista ressalta que a sobrecarga pode levar a sérios problemas de saúde, como lesões na coluna, fibromialgia, hipertensão e transtornos mentais.
O Poder Terapêutico da Música e da Alegria
Cosette Castro enfatiza a importância de resgatar a criança interior e o direito ao riso, mesmo em meio a responsabilidades diárias. O carnaval, com sua energia contagiante, torna-se um veículo para essa reconexão. Os sons e as letras das músicas têm um valor terapêutico imenso, especialmente para pessoas que lidam com a perda de memória em seus entes queridos, como no caso do Alzheimer, onde a música pode ser uma das últimas memórias a serem perdidas.
O coletivo utiliza eventos como caminhadas, exposições e, claro, o carnaval, para disseminar informações e oferecer suporte. A participação em atividades lúdicas e comunitárias, como a folia, não é apenas uma forma de entretenimento, mas um ato essencial de autocuidado, permitindo que as cuidadoras recuperem suas energias e reforcem a importância de zelar pelo próprio bem-estar para continuar oferecendo o melhor cuidado possível.
Do Cuidado à Celebração: O Carnaval como Ferramenta de Saúde
A experiência de Carmen Araújo, que herdou o amor pelo carnaval de seu pai, hoje com 89 anos, ilustra o ciclo virtuoso criado pelo coletivo. Ela se emociona ao lembrar da animação do pai na folia, uma memória que agora se soma à sua participação ativa no Filhas da Mãe. Essa participação não só a ajuda a lidar com os desafios do cuidado, mas também a conecta com outras famílias, criando uma rede de solidariedade e força.
O Filhas da Mãe promove a saúde e o bem-estar de forma integral, reconhecendo que o autocuidado das cuidadoras é um pilar fundamental para a qualidade de vida de todos. A transformação da folia em um espaço de terapia e união demonstra a criatividade e a resiliência encontradas no **carnaval**, provando que a alegria pode ser um poderoso remédio.
