Brasil na Vanguarda da Inteligência Artificial: Uma Oportunidade Estratégica para Soberania Digital
O Brasil assinou a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), sediada em Xangai, China. A iniciativa propõe uma governança global de IA com modelos de código aberto, buscando democratizar o acesso à tecnologia e fomentar a apropriação por diversas entidades.
Essa abordagem chinesa diverge do projeto americano Pax Silica, focado em reunir aliados para controlar cadeias de suprimentos essenciais para a IA. Especialistas consultados pela Agência Brasil veem na Waico uma chance única para o país desenvolver sua própria soberania digital.
No entanto, para capitalizar essa oportunidade, o Brasil precisa, segundo especialistas, “fazer o dever de casa”. Isso implica em investimentos robustos em infraestrutura e desenvolvimento tecnológico interno, garantindo que o país possa absorver e aplicar o conhecimento adquirido sem dependência externa. A informação é da Agência Brasil.
A Waico e a Soberania Digital Brasileira
A participação brasileira na Waico é vista por especialistas como um passo crucial para a construção da **soberania digital** do país no campo da Inteligência Artificial. O professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Sétio Amadeu da Silveira, destaca que o Brasil possui um potencial significativo, com centros de pesquisa de excelência.
“O Brasil pode encontrar um caminho de desenvolvimento que seja mais autônomo, mais independente. Sem dúvida nenhuma, o Brasil deve ter uma aliança maior com a China, mas temos que desenvolver nossa própria estratégia”, avaliou Silveira. Ele ressalta que a cooperação com a China pode ser um trampolim, mas a **autonomia tecnológica** é fundamental.
O sociólogo enfatiza que, sem uma infraestrutura nacional sólida para processamento e armazenamento de dados, o Brasil corre o risco de não conseguir aproveitar plenamente os benefícios da cooperação internacional. A dependência de nuvens de big techs, sejam elas americanas ou chinesas, representa um entrave significativo para o desenvolvimento interno.
Infraestrutura Crítica: O Gargalo para a IA Brasileira
O professor Sétio Amadeu exemplifica o desafio financeiro. Ele estima que, em um projeto de R$ 10 milhões para desenvolvimento em IA, metade do valor poderia ser consumida apenas com contratos de armazenamento em nuvens de grandes empresas. Isso evidencia a necessidade de **investir em infraestrutura nacional**.
“Eu não tenho infraestrutura disponível aqui que me permita que os pesquisadores, as universidades e o próprio governo, em vez de sustentar big tech estrangeira, gaste recursos criando expertise e infraestrutura no nosso país para processamento e armazenamento de dados, que nos dê um poder computacional grande”, comentou o especialista.
Ettore Arpini, especialista em governança de IA e fundador da Plures, concorda que o Brasil tem condições de ser um ator relevante na geopolítica da IA, transitando entre as iniciativas globais. Ele defende que a IA deve ser vista como uma **vantagem geopolítica e econômica**, e não apenas como um setor a ser regulado.
A Visão do Brasil na Geopolítica da IA
O governo brasileiro tem mantido uma postura de não dependência de nenhum modelo específico, seja chinês ou ocidental. A estratégia é dialogar com diversas iniciativas para alcançar a **soberania digital**. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido que a IA não se torne um privilégio de poucos países ou um instrumento de manipulação.
“Necessitamos de uma governança intergovernamental da IA, em que todos os Estados tenham assento”, declarou o presidente Lula em fóruns multilaterais, ecoando a necessidade de uma participação global equitativa no desenvolvimento e governança da IA.
António Guterres, secretário-geral da ONU, presente no lançamento da Waico, alertou que a IA pode ser tanto a “maior oportunidade da humanidade no século 21I” quanto “um dos seus maiores riscos”. Ele reforçou que a tecnologia que moldará o futuro deve ser moldada por toda a humanidade, não por um pequeno grupo de países ou empresas.
Pax Silica vs. Governança Global da IA
O projeto americano Pax Silica contrasta com a visão de uma IA governada por todos os países. Washington busca controlar as cadeias de suprimentos de minerais críticos, dados e energia, pilares da IA, por meio de uma aliança de “aliados confiáveis”.
Um artigo do subsecretário de Estado dos EUA, Jacob Helberg, criticou o conceito de “soberania digital” defendido pela ONU e por países como o Brasil. Ele argumentou que países que buscam desenvolver sua própria infraestrutura de IA correm o risco de alcançar uma “mediocridade sincronizada”, enquanto empresas americanas “estarão inventando o futuro”.
Helberg sugere que os países teriam mais benefícios ao aproveitar as infraestruturas já construídas pelas big techs. Essa visão, contudo, é contestada por aqueles que defendem a importância da **autonomia tecnológica** e do desenvolvimento de capacidades internas para garantir a soberania digital e o progresso nacional em IA.
