Segunda-feira, 20 de Julho de 2026 às 23:32
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Barulho de Lanchas e Turistas Silencia Peixes: Estudo da UFPE Revela Impacto Chocante na Comunicação Subaquática

O som vibrante dos motores de lanchas e jet skis, somado à agitação de turistas, está criando um cenário preocupante para a vida marinha. Um estudo inovador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) revela que a poluição sonora gerada por atividades humanas em praias populares está silenciando a comunicação essencial entre os peixes, com consequências diretas para a sua sobrevivência.

A pesquisa, publicada na revista científica Neotropical Ichthyology, aponta que o barulho excessivo mascara os sons emitidos pelos peixes, dificultando ou até impedindo comportamentos vitais como a busca por alimento, a reprodução e a defesa de seus territórios. Essa interferência sonora representa um risco significativo não apenas para as diversas espécies de peixes, mas também para a saúde dos ecossistemas de recifes de corais.

Conforme divulgado pela Agência Bori, o estudo monitorou intensamente os ruídos subaquáticos em duas renomadas praias turísticas de Pernambuco: Carneiros e Tamandaré. Os resultados são alarmantes, indicando uma clara redução na emissão de sons pelos peixes nas áreas mais afetadas pela presença humana e pelo tráfego de embarcações.

Praias Turísticas Sob Fogo Cruzado Sonoro

A pesquisa de campo foi realizada em locais de grande apelo turístico, como a Praia de Carneiros, localizada na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe, e a Praia de Tamandaré, situada na APA Costa dos Corais. Essas regiões foram escolhidas por suas características distintas de visitação turística, permitindo uma análise comparativa dos impactos sonoros.

Os pesquisadores da UFPE instalaram sistemas de gravação subaquática em pontos estratégicos, tanto próximos à costa, onde a atividade humana é mais intensa, quanto em áreas mais abrigadas pelos recifes de coral. Ao longo de dez horas diárias de gravação contínua, totalizando 80 horas de dados acústicos, mergulhadores também realizaram censos visuais para catalogar as espécies e a quantidade de peixes presentes, identificando entre 18 e 23 espécies em Carneiros, onde quase 1,4 mil peixes foram contados.

A Voz dos Peixes Abafada pelo Ruído

O estudo identificou nove tipos distintos de sons produzidos por peixes, e surpreendentemente, três desses sons deixaram de ser emitidos em locais com alta exposição ao ruído humano. A ictiologia, ramo da zoologia dedicado ao estudo dos peixes, explica que esses sons são cruciais para a comunicação e sobrevivência, sendo utilizados em comportamentos específicos como a busca por parceiros, a defesa de território e a detecção de predadores.

O fenômeno conhecido como “mascaramento acústico” ocorre quando o ruído contínuo das embarcações abafa os sinais sonoros dos peixes. Além disso, observa-se a “supressão de comportamento”, onde o barulho leva os peixes a reduzirem ou cessarem suas vocalizações. Essa perda na comunicação pode afetar diretamente a cadeia alimentar e o equilíbrio dos ecossistemas recifais.

Recifes em Risco: Do Turismo à Economia Local

O pesquisador T úlio Freire Xavier, do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE, enfatiza que os peixes recifais desempenham um papel fundamental na saúde dos recifes de corais, auxiliando no controle de algas e na manutenção dos próprios corais. Esses ecossistemas, por sua vez, sustentam atividades econômicas importantes para a região, como o turismo e a pesca artesanal.

“Quando a poluição sonora interfere no comportamento desses peixes, existe o potencial de afetar, ainda que de forma indireta, os serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem”, alerta Xavier. Ele ressalta que o impacto do ruído subaquático não se restringe ao litoral pernambucano, podendo ocorrer em outros importantes recifes brasileiros, como Abrolhos e Fernando de Noronha, sempre que houver intenso tráfego de embarcações e outras fontes de ruído.

Em Busca de um Planejamento Sustentável

Atualmente, não existem limites universalmente aceitos para níveis seguros de ruído em ambientes recifais voltados à proteção dos peixes. “Esse é um campo que ainda precisa avançar bastante. Estudos como o nosso ajudam justamente a construir esse conhecimento”, afirma Xavier. Ele defende que o turismo e a conservação podem coexistir, mas é essencial que o componente acústico seja considerado no planejamento das atividades.

Medidas relativamente simples, como a organização de rotas de embarcações, a redução da velocidade em áreas sensíveis e a evitação da concentração excessiva de atividades sobre determinados recifes, podem mitigar significativamente esse impacto. “Proteger a paisagem sonora significa também ajudar a preservar o funcionamento ecológico desses ecossistemas e os benefícios que eles oferecem à sociedade”, conclui o pesquisador.

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