Relatório da CPT aponta crescimento de assassinatos e trabalho escravo no campo brasileiro
Um cenário preocupante se desenha no campo brasileiro, com um aumento significativo nos casos de assassinatos e trabalho escravo. A 40ª edição do relatório Conflitos no Campo Brasil, divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), revela um quadro alarmante, mesmo com uma queda geral nas ocorrências de conflitos.
Enquanto o número total de conflitos diminuiu 28%, os assassinatos de trabalhadores e de povos da terra, águas e florestas dobraram em 2025, passando de 13 para 26 vítimas. A Amazônia Legal concentra a maior parte desses crimes, com 16 casos registrados.
Além da violência letal, o relatório também aponta um crescimento em outras formas de violação, como prisões, humilhações e cárceres privados. Os dados, compilados pela CPT, traçam um panorama desafiador para os direitos humanos no meio rural brasileiro, com destaque para a atuação de fazendeiros como principais agentes de violência.
Assassinatos na Amazônia sobem e expõem conflitos por terra
A Amazônia Legal tornou-se o epicentro da violência no campo, com 16 dos 26 assassinatos registrados em 2025 ocorrendo na região. Estados como Pará, Rondônia e Amazonas concentram o maior número de vítimas. A integrante da Articulação das CPTs da Amazônia, Larissa Rodrigues, atribui este cenário ao avanço de um “projeto histórico de expansão colonial e capitalista”, que transforma povos e territórios em alvos de expropriação e extermínio.
Rodrigues também aponta o fortalecimento de um “consórcio entre grilagem, crime organizado, setores do Estado, além de setores privados” como um fator determinante para a intensificação desses conflitos. Os fazendeiros se destacam como os principais responsáveis pelos assassinatos, atuando como mandantes ou executores em 20 dos 26 casos documentados.
Trabalho Escravo em Alta: Construção Civil e Setor Agropecuário em Destaque
O trabalho escravo ou análogo à escravidão também apresentou um crescimento de 5% em 2025, com 159 casos registrados. O número de trabalhadores resgatados nessa condição aumentou 23%, totalizando 1.991 pessoas. Um dos casos mais graves envolveu a construção de uma usina em Porto Alegre do Norte, Mato Grosso, onde 586 trabalhadores foram resgatados em condições degradantes.
As atividades econômicas com maior incidência de trabalho escravo foram a construção de usinas, lavouras, cana-de-açúcar, mineração e pecuária. Estes setores, segundo a CPT, historicamente concentram os maiores registros de exploração, com destaque recorrente para as lavouras e a pecuária.
Outras Violações de Direitos Humanos Aumentam
Além dos assassinatos e do trabalho escravo, o relatório da CPT detalha o aumento de outras formas de violência. As prisões saltaram de 71 para 111, casos de humilhação subiram de cinco para 142, e o cárcere privado de um para 105. O documentalista do Cedoc/CPT, Gustavo Arruda, relaciona o aumento de humilhações e cárceres à ação arbitrária da Polícia Militar de Rondônia durante a Operação Godos, que interrompeu uma reunião de famílias sem terra.
O aumento nas prisões também é atribuído a ações pontuais do Estado sobre comunidades, como a prisão de povos originários na Terra Indígena Barra Velha, na Bahia, e operações policiais contra integrantes da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) em Rondônia.
Plataforma Socioambiental Une Dados sobre Conflitos e Desmatamento
Em paralelo à divulgação do relatório, a CPT lançou, em parceria com o ISPN, o Observatório Socioambiental. Esta iniciativa da sociedade civil compila dados de 1980 a 2023 sobre violações de direitos humanos, desmatamento e expansão da agricultura industrial no Brasil. A plataforma digital interativa visa disponibilizar informações de forma segmentada, permitindo visualizar a relação entre a produção de commodities e os conflitos socioambientais no país.
