Crise na Argentina: Milei enfrenta escândalos de corrupção e economia em declínio, com popularidade em queda livre
O governo do presidente argentino, Javier Milei, atravessa um dos seus momentos mais delicados desde que assumiu o poder em dezembro de 2023. Enfrentando uma escalada na inflação, uma retração na atividade econômica e industrial, além de escândalos de corrupção que atingem figuras chave do seu gabinete, Milei vê sua popularidade despencar.
A inflação, um dos principais focos de atenção do governo, que havia registrado uma desaceleração para cerca de 2% ao mês em meados de 2025, voltou a dar sinais de aceleração. Em março deste ano, os índices de preços atingiram 3,4%, um número que o próprio Milei reconheceu como “ruim” nas redes sociais, sinalizando as dificuldades econômicas que o país enfrenta.
A situação é agravada pela queda contínua na atividade econômica e industrial. Esses indicadores, somados aos escândalos de corrupção, têm minado a confiança da população e gerado um cenário desafiador para o futuro da gestão ultraliberal, conforme informações divulgadas por fontes especializadas.
Plano Econômico de Milei Sob Fogo Crítico
O plano econômico de Javier Milei, focado na redução do tamanho do Estado, corte de gastos e austeridade fiscal, tem sido criticado por especialistas. Paulo Gala, professor de economia da FGV-SP, avalia o plano como “simplista” e insuficiente para reverter a herança econômica complexa do país.
Gala destaca que a falta de confiança na moeda argentina, o peso, leva à dolarização de contratos, o que pode reativar a inflação rapidamente. “Reduzir o tamanho do Estado não resolve nada”, afirma o economista, sugerindo que medidas mais drásticas, como a criação de uma nova moeda, seriam necessárias.
A sobrevalorização do peso argentino também é apontada como um fator prejudicial, especialmente para a indústria. A abertura comercial promovida por Milei, segundo Gala, tem “destruído o pouco que restou de indústria na Argentina”, levando a uma possível desindustrialização e foco excessivo no agronegócio.
Queda na Produção Industrial e Cenário de Recessão
Os dados da produção industrial são particularmente preocupantes. Em fevereiro, o setor registrou uma queda de 4% em relação a janeiro, acumulando um declínio de 8,7% nos últimos 12 meses. Essa retração é considerada “fatal” por especialistas, pois o setor industrial é crucial para o aumento da produtividade e ganhos tecnológicos.
A atividade econômica geral também sofreu uma contração de 2,6% em fevereiro comparado a janeiro, com uma queda acumulada de 2,1% nos últimos 12 meses. Esses números alimentam o receio de um cenário de recessão, com possibilidade de uma nova crise cambial e um aumento da dívida em dólares, conforme alerta Paulo Gala.
Escândalos de Corrupção Afetam a Popularidade de Milei
Paralelamente à crise econômica, recentes casos de corrupção têm abalado a imagem do governo Milei. Investigações sobre o suposto enriquecimento ilícito do chefe de gabinete, Manuel Adorni, incluindo viagens de luxo e aquisição de imóveis incompatíveis com sua renda, têm gerado forte repercussão.
Pesquisas de opinião recentes indicam uma desaprovação de Milei superior a 60%, os piores índices desde o início de seu mandato. Segundo a consultoria Zentrix, 66,6% da população avalia que a promessa de combate à corrupção, o discurso “anti-casta” de Milei, foi quebrada.
O cientista político Leandro Gabiati ressalta que o discurso anticorrupção foi central na eleição de Milei. “Quando se observa que há casos envolvendo alguns funcionários do governo, como é o caso do chefe de gabinete, isso afeta a imagem do governo, desgasta o governo e cria problemas”, explica.
Oposição Desorganizada e Notícia Positiva da Fitch Ratings
Apesar dos desafios, um fator que tem jogado a favor do governo Milei é a desorganização da oposição. A falta de uma alternativa política clara para o eleitorado argentino mantém o governo em uma posição relativamente estável, mesmo diante das crises.
Em uma notícia positiva, a agência de riscos Fitch Ratings elevou a nota de crédito da Argentina de CCC+ para B-, com perspectiva de estabilidade. A agência reconheceu melhorias na “situação fiscal” e na balança externa do país, o que impulsionou a bolsa de Buenos Aires. No entanto, economistas como Paulo Gala ponderam que essa melhora na nota de crédito não altera o quadro geral da economia argentina.
Restrições à Imprensa e Liberdade de Informação
Em meio ao turbilhão de notícias, o governo Milei também tem entrado em conflito com a imprensa. No final de abril, o acesso de jornalistas à Casa Rosada foi proibido, afetando cerca de 60 profissionais. A medida, criticada como uma violação à liberdade de imprensa, foi revertida após repercussão negativa, com a reabertura do local para a imprensa, embora ainda com restrições de circulação.
