Quinta-feira, 05 de Novembro de 2026 às 10:06
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Derrota de Trump nos EUA pode frear intervenções na América Latina e abrir caminho para acordo comercial com o Brasil

Nova configuração política nos EUA pode alterar o rumo da política externa americana na América Latina e nas relações comerciais com o Brasil

A recente derrota eleitoral do presidente Donald Trump, que resultou na perda da maioria republicana na Câmara e no Senado dos Estados Unidos, acende um debate sobre os futuros rumos da política externa americana, especialmente em relação à América Latina. A possibilidade de um Congresso com maioria democrata levanta expectativas de uma mudança na abordagem de Washington para a região, com potenciais reflexos em iniciativas como o “Escudo das Américas” e em disputas comerciais.

A política externa de Trump tem sido marcada por uma forte defesa da “proeminência” dos EUA na América Latina, com o objetivo declarado de conter a crescente influência econômica da China. Essa estratégia, segundo analistas, pode ser reavaliada com o novo equilíbrio de poder no Congresso, abrindo espaço para um diálogo mais construtivo e menos intervencionista na região. A relação comercial com o Brasil, em particular, pode ser um dos primeiros campos de negociação a sentir os efeitos dessa mudança.

A professora de Relações Internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), explica que um Congresso de maioria democrata tenderá a impor restrições aos gastos em ações no exterior e a investigações contra membros do Executivo. “No âmbito da defesa, isso vai ser muito importante. Eu imagino que o Congresso tende a sustar os gastos desse setor. Na América Latina, isso tende a ser percebido, inclusive, dentro do Escudo das Américas, com talvez menos recursos e menos ênfase a essa política. Portanto, pode vir a representar um freio para interromper essas políticas intervencionistas”, avalia Vidal, conforme divulgado pela Agência Brasil.

O “Escudo das Américas” sob escrutínio

Uma das iniciativas emblemáticas da política externa de Trump para a região é o “Escudo das Américas”. Embora justificado como uma ferramenta de combate aos cartéis de drogas, o programa tem sido criticado por ser visto como um instrumento de interferência dos EUA nos assuntos internos dos países latino-americanos. Um exemplo citado é o caso da Bolívia, onde o Escudo das Américas foi utilizado para prender o procurador-geral do país, Roger Mariaca, sob acusação de colaboração com o narcotráfico. A prisão gerou controvérsias, uma vez que Mariaca investigava um operador digital ligado ao movimento de Trump e que atuou como assessor de presidentes na Argentina e na Bolívia.

Tarifas comerciais e a busca por um acordo com o Brasil

As tarifas impostas pelo governo Trump contra o Brasil também têm sido um ponto de tensão, interpretadas pelo governo brasileiro como uma interferência política com potencial impacto nas eleições. O doutor em Ciência Política Juliano Machado Pires sugere que a derrota eleitoral pode incentivar o governo Trump a buscar um acordo com o Brasil. “Se eles aprenderam algo com a derrota, é que a economia precisa melhorar. Comprar briga com o Brasil neste momento não faz o menor sentido”, afirmou à Agência Brasil.

Pires acrescenta que o secretário do Departamento de Estado, Marco Rubio, responsável pela política externa do governo Trump, pode ter que dedicar mais tempo a explicações ao Congresso. “Eles precisam de uma série de acordos que eles têm interesse no Brasil, em várias áreas, como nas tarifas, terras raras e data centers. Se eles forem racionais, é o momento de fazer as pazes com o governo brasileiro”, pondera.

Possibilidade de “factóides” para desviar a atenção

Apesar do otimismo em relação a uma possível reaproximação comercial, Juliano Machado não descarta a possibilidade de o governo Trump tentar criar “factóides” no exterior para desviar o foco de problemas internos. Essa estratégia, caso se confirme, poderia gerar novas tensões na relação bilateral e na dinâmica regional. A expectativa, contudo, é de que a nova composição do Congresso americano traga um cenário de maior negociação e menor unilateralismo nas relações internacionais dos Estados Unidos.

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