Sexta-feira, 16 de Outubro de 2026 às 15:34
ADVERTISEMENT

Trabalho Infantil no Brasil: Queda Histórica de 9,2% em 2025, Mas Desafios Persistem para Milhões de Crianças

Trabalho Infantil no Brasil: Queda Histórica de 9,2% em 2025, Mas Desafios Persistem para Milhões de Crianças

O cenário do trabalho infantil no Brasil apresentou uma melhora notável em 2025, com uma redução de 9,2% no número de crianças e adolescentes envolvidos em atividades laborais. Ao todo, 1,499 milhão de jovens, entre 5 e 17 anos, estavam em situação de trabalho infantil, o que representa 4% da população nessa faixa etária. Este dado, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) através da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), marca um recuo importante em comparação com anos anteriores.

A queda é ainda mais expressiva quando comparada a 2016, quando o país registrava 2,1 milhões de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, uma redução de 28,6% em nove anos. Contudo, o caminho para a erradicação completa do problema ainda é longo, e as piores formas de trabalho infantil, que colocam em risco a saúde, o desenvolvimento e a moral dos jovens, ainda afetam centenas de milhares de crianças brasileiras.

Diversos fatores, incluindo o aquecimento do mercado de trabalho, o aumento da renda domiciliar e a atuação de políticas públicas, como o Bolsa Família, contribuíram para essa diminuição. A pesquisa do IBGE detalha esses avanços e os desafios que ainda precisam ser superados para garantir que todas as crianças brasileiras tenham o direito à infância, à educação e ao desenvolvimento pleno.

Avanços Significativos e o Papel das Políticas Públicas

Em 2025, o Brasil contabilizou 1,499 milhão de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, correspondendo a 4% da população na faixa etária de 5 a 17 anos. Este número representa uma queda de 9,2% em relação a 2024, quando eram 1,65 milhão (4,3%). O IBGE define trabalho infantil como qualquer atividade econômica remunerada ou para autoconsumo para menores de 13 anos, e para adolescentes de 14 a 17 anos, qualquer ocupação que não se enquadre nas regras específicas para aprendizes ou trabalhadores com carteira assinada, excluindo atividades insalubres, perigosas ou noturnas.

Gustavo Fontes, pesquisador do IBGE, atribui essa redução a um conjunto de fatores. As políticas públicas, incluindo ações do Ministério Público do Trabalho, desempenham um papel crucial. Programas como o Bolsa Família também são apontados como contribuintes importantes, ao garantir uma renda mínima para famílias em vulnerabilidade.

O aquecimento do mercado de trabalho, com a taxa de desocupação atingindo mínimos históricos, e o aumento da renda domiciliar per capita e do rendimento do trabalho em 2025, são outros fatores que impulsionaram essa melhora. A renda domiciliar per capita média em domicílios beneficiários do Bolsa Família em 2025 era de R$ 660, enquanto aqueles que não recebiam o auxílio tinham uma renda média de R$ 1.990, evidenciando o foco do programa nas famílias de menor rendimento.

O Impacto do Bolsa Família e a Redução Mais Acentuada

A pesquisa do IBGE destaca que o percentual de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil entre os beneficiários do Bolsa Família em 2025 era de 4,4%, ligeiramente acima da taxa geral de 4%. No entanto, a redução do trabalho infantil entre os beneficiários do programa foi mais acentuada. Entre 2016 e 2025, o contingente de crianças e adolescentes em trabalho infantil entre os beneficiários do Bolsa Família caiu 41%, enquanto na população total a queda foi de 29%.

Em 2016, 7,3% dos jovens em domicílios atendidos pelo programa estavam em situação de trabalho infantil, contra 5,2% na população geral. Essa diferença demonstra a eficácia do programa em mitigar a exploração infantil em famílias de baixa renda. A pesquisa também aponta que 89,8% dos trabalhadores infantis em domicílios beneficiários do Bolsa Família eram estudantes, um percentual ligeiramente superior aos 86,9% do total de trabalhadores infantis.

As Piores Formas de Trabalho Infantil e a Persistência de Riscos

Apesar dos avanços, 525 mil crianças e adolescentes estavam em 2025 em piores formas de trabalho infantil (PTI), que são atividades que oferecem riscos à saúde, ao desenvolvimento e à moral. Estas incluem situações como escravidão, exploração sexual e tráfico de drogas. Em 2025, o percentual de crianças em PTI atingiu 1,4% da população nessa faixa etária, o menor patamar da série histórica, mas ainda um número alarmante.

A faixa etária de 16 e 17 anos concentra o maior contingente de trabalhadores infantis, com 871 mil jovens (14,5% da população nessa idade) em 2025. Para a faixa de 14 e 15 anos, eram 348 mil (5,9%), e para crianças de 5 a 13 anos, 280 mil (1,1%). A maioria dos trabalhadores infantis, 1,141 milhão, realizava atividades econômicas, enquanto 358 mil trabalhavam para autoconsumo.

Jornadas Extensas e as Regiões Mais Afetadas

A jornada de trabalho é uma preocupação significativa, com 36,3% dos jovens de 5 a 17 anos trabalhando mais de 25 horas semanais, e 21,4% dedicando 40 horas ou mais à atividade laboral. A situação é mais crítica entre os adolescentes de 16 e 17 anos, onde quase metade (49,6%) trabalha 25 horas ou mais, e 29,6% enfrentam jornadas de 40 horas semanais ou mais.

Em termos regionais, o Sudeste concentrava o maior número de crianças e adolescentes em trabalho infantil em 2025, com 481 mil. O Nordeste aparecia em segundo lugar, com 408 mil. No entanto, a Região Norte apresentou a maior proporção de trabalho infantil em relação à sua população nessa faixa etária (6,3%), enquanto o Sudeste teve a menor proporção (3,3%). O Nordeste se destacou pelas maiores reduções no contingente de trabalho infantil.

Sexo, Raça e Frequência Escolar: Desigualdades Persistentes

Os dados do IBGE também revelam desigualdades de gênero e raça. Homens representam 65,4% das crianças e adolescentes em trabalho infantil, apesar de serem 51,2% da população total na faixa etária. No recorte racial, pretos e pardos, que somam 59,7% da população, compõem 67% dos trabalhadores infantis, enquanto brancos, que são 39,5% da população, representam 32%.

A frequência escolar é outro ponto de atenção. Embora a quase totalidade (99,7%) das crianças de 5 a 13 anos em trabalho infantil frequente a escola, o percentual cai para 95% na faixa de 14 e 15 anos e para 79,6% no grupo de 16 e 17 anos, demonstrando o impacto do trabalho na trajetória educacional dos jovens.

Menu