Representação de parlamentares negros na Câmara dos Deputados segue baixa, aponta pesquisadora
Apesar de uma aparente queda nos números, a cientista política Evelyn Apolinária destaca que o principal problema é a sub-representação persistente de pessoas negras no parlamento brasileiro. A redução de 139 para 135 parlamentares pardos e pretos na Câmara dos Deputados, embora significativa, mascara uma realidade mais profunda.
Evelyn Apolinária, professora do Centro Universitário de Brasília (Ceub), ressalta que os negros representam aproximadamente metade das candidaturas e pouco mais da metade da população brasileira, contudo, ocupam apenas cerca de 25% das cadeiras. Essa disparidade aponta para desigualdades estruturais que dificultam o acesso e a permanência de negros na política.
A pesquisadora, doutoranda na Universidade de Brasília (UnB), aponta que recursos de campanha, acesso a financiamento e estruturas partidárias ainda são desiguais. “As regras de incentivo, como a distribuição proporcional dos fundos, não bastaram para reduzir essa distância”, explica Evelyn Apolinária. A informação é da pesquisadora. O dado mais relevante não é a perda de quatro cadeiras, mas sim a sub-representação persistente.
O Desafio da Representatividade Racial
Apesar de a federação União Brasil e Progressistas ter eleito o maior número de parlamentares negros (32 cadeiras, 23,7% do total), a presença de negros no parlamento não garante, por si só, uma agenda coesa em relação ao combate ao racismo. Evelyn Apolinária observa que a orientação ideológica de cada parlamentar é um fator determinante.
“O número de parlamentares negros não diz, por si só, nada sobre a orientação ideológica de cada um. Apenas a representação por raça e cor não garante uma agenda una e coesa nessa questão”, afirma a pesquisadora. A literatura acadêmica sobre representação corrobora essa visão, indicando que a presença de um grupo não assegura automaticamente a defesa de seus interesses.
Congresso à Direita e o Futuro das Pautas Raciais
A cientista política avalia que um Congresso com maior inclinação à direita pode resultar em uma redução na agenda de projetos voltados ao combate ao racismo e à ampliação de políticas afirmativas. A incerteza sobre a produção legislativa desses parlamentares em relação à igualdade racial também é um ponto de atenção.
Fatores como o resultado do segundo turno presidencial e a relação entre o Executivo e o Legislativo podem influenciar o andamento dessas pautas. O papel da bancada negra e sua presença em posições estratégicas, como no colégio de líderes, podem ser cruciais para manter temas de igualdade racial na agenda, mesmo diante de uma maioria parlamentar menos favorável.
Riscos e Possibilidades na Luta Antirracista
Evelyn Apolinária pondera que o cenário atual aponta para um risco de menor prioridade e maior conflito em relação às pautas raciais, mas não para uma ausência garantida dessas discussões. “Eu falaria em risco de menor prioridade e de maior conflito, não em ausência garantida de pautas”, conclui a pesquisadora.
A atuação antirracista no Legislativo, historicamente, tem se concentrado em partidos de esquerda e centro-esquerda. Portanto, a configuração política do Congresso pode impactar diretamente a força e a capacidade de avanço dessas propostas, exigindo estratégias e articulações mais robustas por parte dos defensores da igualdade racial.
