Jovens Brasileiros Levarão Experiências da Falta d’Água para Debate na ONU em Abu Dhabi
A luta pelo acesso à água potável e saneamento básico ganha voz internacional com a participação de dois jovens brasileiros em uma importante conferência da Organização das Nações Unidas (ONU). Erleyvaldo Bispo, de Sergipe, e Laura de Azevedo Viana, da Bahia, foram selecionados para representar o Brasil em um grupo de 100 jovens de 75 países que debaterão soluções para a crise hídrica global.
Ambos compartilham em suas trajetórias a vivência direta com a escassez de água, uma realidade que moldou suas perspectivas e os impulsionou ao ativismo. Suas experiências pessoais se tornam agora ferramentas poderosas para influenciar discussões e políticas em um palco global, buscando garantir que as vozes das comunidades mais afetadas sejam ouvidas.
A Conferência da ONU sobre Água, que ocorrerá entre 8 e 10 de dezembro em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, tem como objetivo acelerar a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6), focado em garantir água e saneamento para todos. A participação ativa da juventude é vista como crucial para o sucesso deste encontro, conforme divulgado pelo programa Global Youth Water Envoys.
Erleyvaldo Bispo: Da Seca do Agreste à Tribuna da ONU
Erleyvaldo Bispo, um sergipano de 28 anos, carrega em sua memória as dificuldades enfrentadas por comunidades inteiras em sua região natal, no agreste de Sergipe. Poços secos, a dependência de carros-pipa e a constante incerteza em relação à chegada das chuvas foram o pano de fundo de sua infância e juventude.
Essa vivência o motivou a fundar a ONG Águas Resilientes, dedicada a desenvolver estratégias para o acesso à água potável. Ele se vê como um sobrevivente da falta d’água e enfatiza a importância de levar para Abu Dhabi a voz de milhões de brasileiros que enfrentam diariamente a insegurança hídrica.
Em sua bagagem para o Oriente Médio, Erleyvaldo levará preocupações que vão desde os efeitos imediatos do Super El Niño, que pode agravar secas em diversas regiões, até apreensões de longo prazo sobre o futuro da Amazônia e sua influência na disponibilidade hídrica, citando estudos que apontam para um possível colapso da floresta a partir de 2050.
Para Erleyvaldo, discutir acesso à água é intrinsecamente ligado à soberania nacional. Ele pretende destacar a necessidade de investimentos em projetos voltados para a questão hídrica, especialmente no Sul Global, composto por países em desenvolvimento como os da América Latina, África e Ásia.
Laura de Azevedo Viana: Racismo Ambiental e a Luta por Justiça Hídrica
Laura de Azevedo Viana, bacharel em direito de 23 anos, representa o segundo nome brasileiro selecionado. Sua atuação está focada na governança dos oceanos e no combate ao racismo ambiental, temas que ganharam destaque em sua vivência no bairro de Cajazeiras, em Salvador, Bahia.
Ela relata que em seu bairro, classificado como periférico e de maioria negra, o fornecimento de água é frequentemente interrompido por dias, ou até semanas. Essa realidade contrasta com a de bairros nobres da capital baiana, onde a população, majoritariamente branca e com melhores condições financeiras, não enfrenta tais privações.
Laura acredita na sinergia entre o ativismo e o conhecimento científico para comprovar e combater essas desigualdades. Ela destaca que comunidades indígenas, quilombolas e costeiras são as mais afetadas pela degradação dos recursos hídricos.
Sua principal bandeira na conferência é a proteção dessas comunidades e a garantia da participação efetiva da juventude. Laura defende a criação de um espaço institucional permanente, além de eventos pontuais, para que as vozes jovens sejam ouvidas de forma contínua e eficaz.
O Papel da Juventude na Conferência da ONU sobre Água
A seleção dos 100 jovens para a Conferência da ONU sobre Água foi realizada pelo programa Global Youth Water Envoys, promovido pelo Arab Youth Center (AYC). O programa buscou indivíduos com forte ligação com a questão do acesso à água, seja por meio de ativismo, vivências pessoais ou envolvimento em programas comunitários.
O objetivo dos organizadores é que os jovens não sejam meros espectadores, mas sim colaboradores qualificados, preparados para questionar pressupostos e trazer à tona as realidades de comunidades cujas vozes raramente são ouvidas nas discussões globais. A preparação de dois meses visa capacitar os selecionados para que apresentem as prioridades da juventude e as complexidades hídricas locais no diálogo internacional.
Sultan bin Saif Al Neyadi, ministro para Assuntos da Juventude dos Emirados Árabes Unidos e vice-presidente do AYC, ressaltou que o valor da participação desses jovens será medido pelo conhecimento que trazem, pelo rigor de sua preparação e pela capacidade de transformar experiências em propostas concretas para os tomadores de decisão.
