Quarta-feira, 09 de Setembro de 2026 às 14:01
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Morre Zélia Amador de Deus, Ícone da Luta Antirracista e Educadora que Transformou a Amazônia Negra

Um legado de luta e esperança se despede: Zélia Amador de Deus, voz potente contra o racismo, nos deixa.

A comunidade acadêmica e o movimento negro no Brasil lamentam profundamente o falecimento de Zélia Amador de Deus, figura proeminente e incansável na luta antirracista, especialmente na região amazônica.

Zélia foi uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa) e uma defensora ferrenha dos direitos das comunidades quilombolas, deixando um rastro de realizações que inspiram gerações.

Sua partida representa uma perda inestimável, mas seu legado de coragem, sabedoria e compromisso com a justiça social ecoará para sempre, conforme divulgado pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

Um Símbolo de Ancestralidade e Resiliência

Recentemente, em 18 de agosto, Zélia Amador de Deus foi homenageada na UFPA com o plantio de um baobá, árvore de grande significado simbólico para diversos povos africanos, representando ancestralidade e memória. Na ocasião, a professora expressou sua emoção, afirmando que o baobá simboliza “aqueles que vieram antes de nós”.

A UFPA destacou a importância fundamental de Zélia na construção de uma instituição mais plural, inclusiva e comprometida com a igualdade racial, reconhecendo-a como uma das **principais referências do movimento negro na Amazônia**.

A pesquisadora em ciências sociais e ativista **dedicou sua vida à ampliação do acesso e da permanência de grupos historicamente excluídos do ensino superior**, combatendo o racismo em suas diversas formas.

Um Marco na Educação e nos Direitos Humanos

O reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, ressaltou a grandiosidade de Zélia, descrevendo-a como “uma referência, um símbolo, uma entidade”, mas que jamais deixou de cultivar “as relações humanas, a amizade e o cuidado com as pessoas”.

Zélia Amador de Deus ocupou o cargo de vice-reitora da UFPA entre 1993 e 1997 e, em 2019, recebeu o título de **professora emérita**, em reconhecimento à sua vasta contribuição acadêmica e aos saberes ancestrais que disseminou.

A historiadora Janira Sodrè, fundadora do Instituto Pretas, descreveu Zélia como “insurgente” e uma mestra que “nos ensinou a nortear o olhar sobre o país”, ao dar protagonismo às mulheres da Amazônia Negra.

Legado de Luta pelas Cotas e Saberes Tradicionais

O professor Jonas Pinheiro, pesquisador da área de educação, enfatizou o papel crucial de Zélia na luta pelas **cotas raciais**, pelo processo seletivo especial quilombola e pelo respeito aos saberes tradicionais. “Zélia Amador de Deus abriu caminhos para que nós, quilombolas, negros, indígenas e povos tradicionais, pudéssemos ocupar e permanecer na UFPA”, afirmou.

A cantora e compositora Gaby Amarantos também prestou homenagem, agradecendo os ensinamentos da professora que “ficam conosco pra sempre”.

Origem e Inspiração no Marajó

Nascida em Soure, na Ilha do Marajó, em 1951, Zélia foi filha de mãe solteira e cresceu em um ambiente de trabalho árduo. Sua família mudou-se para a periferia de Belém, onde sua mãe trabalhava como empregada doméstica e seu avô, antes vaqueiro, tornou-se operário.

A UFPA relembrou que Zélia, ao estudar em escolas públicas, sofreu racismo devido à cor da pele e ao cabelo crespo. No entanto, ela aprendeu com sua avó a jamais “baixar a cabeça” e a impor sua presença em qualquer lugar, uma lição de **dignidade e força** que marcou sua trajetória.

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