Quarta-feira, 05 de Agosto de 2026 às 17:09
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Bethânia Amaro lança “Ressalga”: romance de estreia que resgata a voz de profissionais do sexo na Salvador boêmia

Bethânia Amaro lança romance “Ressalga”, dando voz a profissionais do sexo na Salvador boêmia dos anos 50 a 70

A escritora Bethânia Amaro faz sua estreia na ficção com o romance “Ressalga”, pela editora Record. A obra mergulha na história da Ladeira da Montanha, em Salvador, um antigo reduto da boemia que, entre as décadas de 1950 e 1970, teve como protagonistas mulheres profissionais do sexo, muitas vezes invisibilizadas pela memória oficial.

Inspirada pela transformação da Ladeira da Montanha, de um vibrante centro de vida noturna a um local de abandono, Bethânia Amaro buscou resgatar as trajetórias dessas mulheres. A escritora ressalta a importância de dar voz a essas figuras que foram o “coração daquela região” e que sofreram com uma profunda invisibilização.

“Essas mulheres tinham sido o coração daquela região, daquele centro histórico, e não havia nada na voz delas, não havia nada mesmo. Foi uma invisibilização da existência dessas mulheres”, afirma a autora. A pesquisa para o livro, segundo Bethânia Amaro, revelou a escassez de registros históricos sob a perspectiva feminina, sendo necessário reconstruir suas vidas a partir de menções em biografias masculinas.

A pesquisa por trás de “Ressalga”

Bethânia Amaro revela que a ideia para “Ressalga” surgiu de seu crescimento em Salvador e da percepção da Ladeira da Montanha como um importante centro boêmio. Atualmente em ruínas, a ladeira a motivou a investigar como se chegou a essa condição, focando nas mulheres que ali trabalharam.

A escritora descobriu que Jorge Amado chegou a planejar um livro sobre essas mulheres, encomendando fotografias de Flávio Damm para um projeto intitulado “Mulher Dama”. Contudo, o livro nunca foi publicado devido à repressão da ditadura militar, especialmente após o AI-5.

“As imagens ficaram engavetadas por mais de 50 anos, até que houve uma mostra delas em Salvador, em 2018. Foi a primeira vez que essas fotos saíram da sombra. Tudo isso só me mostrou com mais segurança que havia uma história ali a ser contada”, explica Amaro.

Resgatando protagonistas invisibilizadas

A pesquisa de Bethânia Amaro na Assembleia Legislativa da Bahia encontrou um vasto material sobre grandes personalidades do estado, mas quase que exclusivamente sobre homens. Foi nas entrelinhas dessas biografias e entrevistas que ela conseguiu reconstruir o mosaico da vida das mulheres que frequentavam a Ladeira da Montanha.

“Elas não constaram da historiografia oficial, elas foram realmente apagadas em termos de registro histórico. Só sobreviveram na memória e na voz desses homens que frequentavam aqueles espaços e se lembravam delas”, lamenta a autora.

A obra “Ressalga” busca celebrar a existência dessas mulheres, indo além da redução a estereótipos ou às violências sofridas. Amaro enfatiza a importância de devolver o protagonismo a elas, permitindo que contem suas próprias histórias com toda a sua complexidade e personalidade.

Ficção e história se entrelaçam

O romance “Ressalga” narra a história de três gerações de mulheres na Bahia, com destaque para Graça, que se torna uma importante cafetina. A personagem foi inspirada em figuras reais como Maria Pires, conhecida por oferecer descontos a estudantes, e Maria da Vovó, que comandou um cabaré movimentado e enfrentou a violência policial.

A narrativa é permeada por acontecimentos históricos do Brasil, como a morte de Getúlio Vargas e a ascensão de Juscelino Kubitschek, além de figuras como o médium Zé Arigó. O objetivo é transportar o leitor para a Salvador e o Brasil dos anos 50, 60 e 70, apresentando uma história verossímil.

“O trabalho é ficcional, porém com esse grande substrato histórico”, descreve Bethânia Amaro, que busca criar uma experiência imersiva e fiel ao período abordado.

Apresentação especial na Flipelô

Bethânia Amaro expressa grande expectativa em apresentar “Ressalga” durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), que ocorre no Centro Histórico de Salvador. A cidade e a região onde a história se passa são o território onde a obra surgiu.

“A história da Bahia, que é muito celebrada na Flipelô, e a literatura de grandes autores baianos como Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, para citar apenas dois, serviram de grande referência para o meu trabalho”, conta a escritora.

A participação na Flipelô, em especial por se tratar de Salvador, é um momento muito especial para a autora, que vê a oportunidade de celebrar a literatura e as histórias locais que a inspiraram desde a infância.

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