Domingo, 02 de Agosto de 2026 às 12:27
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Voto Feminino no Brasil: De “Inteligência Incapaz” a Maioria do Eleitorado, a Luta Histórica Contra a Misoginia Continua

A persistente batalha pelo direito ao voto feminino no Brasil enfrenta ecos de misoginia histórica, com discursos que desvalorizam a participação política das mulheres ressurgindo em diferentes épocas.

Desde os primórdios da República, com senadores como Coelho e Campos argumentando em 1891 que “minha mulher não irá votar”, a ideia de que a política não é um espaço para mulheres tem sido combatida. Essa narrativa machista, que descredita a autonomia e a capacidade de decisão feminina, ressurge ciclicamente, como em declarações recentes de influenciadores questionando o voto de mulheres solteiras.

Estudiosas do tema do sufrágio feminino, em entrevistas à Agência Brasil, apontam que esses ataques são reações aos avanços na cidadania das mulheres. O que impressiona não é a novidade dos argumentos, mas a sua persistência e a ameaça velada que representam à democracia e à igualdade de gênero.

A conquista do voto feminino no Brasil foi fruto de uma longa e árdua luta, não uma concessão. “Direitos não se mantêm sozinhos. Eles exigem luta permanente”, afirma a professora de direito Fernanda Abreu, da UERN. Essa batalha, travada contra a resistência do Estado e de uma sociedade estruturalmente machista, é fundamental para entender o cenário atual. Conforme dados recentes, as mulheres já representam mais de 53% do eleitorado brasileiro, um reflexo da resiliência e da importância de sua participação política.

Sufragistas: Inteligência e Resistência Contra a Opressão

A trajetória das sufragistas brasileiras é marcada pela inteligência e pela perseverança. Cibele Tenório, pesquisadora da UnB e biógrafa da sufragista Almerinda Gama, destaca que, apesar de “absurda”, a recorrência de ataques misóginos ao longo de mais de um século não surpreende em um país com machismo estrutural. As mulheres do século 20 lutaram incansavelmente para garantir o direito ao voto, enfrentando ridicularização e argumentos de “incapacidade intelectual”.

Em 1890, a própria Constituinte brasileira rejeitou o sufrágio feminino com a justificativa oficial de que as mulheres eram intelectualmente incapazes para a vida pública. Essa visão determinava que seu papel se limitasse ao espaço doméstico, uma ideia combatida ferrenhamente pelas pioneiras do movimento feminista.

Apesar da evolução da legislação, a luta continua. A professora Fernanda Abreu ressalta que qualquer discurso que questione o voto feminino viola a Constituição Federal de 1988, que estabelece o sufrágio universal sem distinção de sexo, além de ferir o princípio da igualdade. “O que chama a atenção não é o ineditismo do discurso, mas a continuidade e as ameaças”, pontua Abreu.

O Voto Feminino: Uma Conquista Institucionalizada e Ameaçada

O marco legal mais significativo para o voto feminino foi o Decreto 21.076 de 1932, que garantiu o direito das mulheres às urnas e ao voto secreto. Esse direito foi consolidado na Constituição de 1934, posicionando o Brasil como um dos primeiros países ocidentais a adotar o sufrágio feminino. Posteriormente, o Código Eleitoral de 1946 tornou o voto obrigatório para mulheres alfabetizadas, e a Constituição de 1988 eliminou essa exigência, reforçando a universalidade do direito.

Contudo, a persistência de discursos que deslegitimam o voto feminino, especialmente em um cenário onde as mulheres são maioria no eleitorado (mais de 53% em 2026), configura uma estratégia de intimidação política. Segundo o TSE, em 2026, 83.877.126 brasileiras estarão aptas a votar, superando o número de homens.

Essas manifestações são vistas como parte de um “backlash” antifeminista, uma retaliação às conquistas de direitos. “Quanto mais as mulheres avançam, mais as estruturas que sustentam a misoginia, o patriarcado e o machismo resistem”, explica Fernanda Abreu. A luta pelo voto feminino, portanto, é um exemplo da resiliência necessária para manter e expandir a cidadania plena.

Estratégias de Resistência e a Importância da Educação

Diante da persistência de ataques e da necessidade de manter a vigilância contra retrocessos, as pesquisadoras enfatizam a importância da educação como ferramenta de resistência. “Uma coisa que eu observo nas minhas pesquisas é que muitas sufragistas eram professoras ou atuavam em cursos”, afirma Ana Prestes, historiadora da UnB.

A educação formal e a disseminação do conhecimento são cruciais para combater o apagamento histórico e fortalecer a participação política das mulheres. A ousadia e a habilidade articuladora de figuras como Bertha Lutz, que utilizou diversos meios para defender a causa, servem de inspiração para as gerações atuais.

A professora Hildete Pereira, pesquisadora de economia e gênero da UFF, destaca que o estigma social e a dependência financeira ainda são obstáculos para a plena participação das mulheres na política. “Essas mulheres do final do século 19 e início do século 20 nos ensinam, tanto tempo depois, que é preciso participar e não desistir”, ressalta.

O Futuro da Cidadania Feminina e o Papel do Estado

Para garantir que a conquista do voto feminino seja plenamente consolidada e que a participação política das mulheres continue a crescer, é fundamental que o Estado reafirme seu compromisso com os direitos políticos femininos. Marlise Matos, professora da UFMG, defende a necessidade de reforçar campanhas informativas e publicitárias que incentivem a participação eleitoral.

A luta das sufragistas, que criaram jornais, escolas e marcharam pelas ruas, demonstra a importância da organização e da persistência. A conquista do voto não foi um presente, mas um direito arduamente obtido. A continuidade dessa vigilância e engajamento é essencial para que a cidadania das mulheres seja cada vez mais efetiva e para que os ecos da misoginia histórica sejam silenciados de vez.

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