No início dos anos 1970, Arujá, que mal tinha uma década de emancipação, era um lugar pacato, mas que começava a crescer. A proximidade da capital paulista atraía empresas e moradores. O município ganhava posto telefônico e o Hospital Lions Clube (atual Ipiranga) era inaugurado. O Censo de 1970 indicava a presença de 9.571 pessoas na cidade. Hoje, o número é quase dez vezes maior (91.157, estimativa de 2020). Outra vantagem era obter jornais e revistas e captar sinais de rádio e TV (ainda em preto e branco). Era este o cenário quando o Jornal de Arujá nasceu. A iniciativa deu-se por um apaixonado por comunicação e que veio a Arujá por mero acaso: João Roberto Cardoso.

A equipe do Jornal de Arujá foi recebida em sua casa, em Guarulhos. Com 91 anos e de memória surpreendente, João relembrou os tempos em que cuidou do veículo por quase um quarto de século e em julho passado chegou a marca de 50 anos de vida. Além de como o criou, foram abordados os desafios e dificuldades e como começou a relação com a comunicação, que remonta aos tempos de garoto no interior paulista.

Circo foi o primeiro contato com o mundo da comunicação

João Roberto Cardoso nasceu em 26 de fevereiro de 1930, em Presidente Prudente (SP). O pai, 1º tenente da Força Pública, hoje Polícia Militar, fora transferido para cuidar do regimento de cavalaria. Um tio resolveu levar o menino, com aval dos pais, para estudar na escola do sítio dele, em Santo Anastácio, município da mesma região. Por este fato João Roberto gosta de se dizer anastaciano.

Aos oito anos, encantado com a chegada do circo, ele deseja ser trapezista. O sonho seria realizado tempos depois, em um circo do bairro da Vila Mazzei, Zona Norte de São Paulo, onde passou a morar com 12 anos, junto da família. A carreira no picadeiro seria abreviada por um acidente. Como alternativa, começou a trabalhar em serviços de alto-falante antes de cada espetáculo. Ali nascia a paixão pelo rádio. Com 17 anos, na Aeronáutica, é convidado por um colega a participar de teste que escolheria o novo apresentador de programa infantil da extinta Rádio Cruzeiro do Sul. Apesar de esquecer o texto, consegue a vaga. Trabalhou, ao longo dos anos, em diversas outras da capital e do interior.

Em 1957, a Difusora de Guarulhos não estava bem e a missão dele era salvá-la. A audiência cresceu tanto que ela promoveu eventos com a presença de artistas ilustres. Devido a cobertura, fazia sucesso até em Minas Gerais. Ele conta da vez que foi a Formiga (MG) a convite do prefeito, que o chamou para se apresentar no ginásio local. Chegando lá, várias pessoas o aguardavam. O fato ainda o emociona. A emissora foi vendida para a fundação André Luiz, em 1969, virando a atual Boa Nova, em 1975.

Encerrada as atividades, João, que fixou residência em Guarulhos, decidiu investir na criação de jornais. Paralelo ao rádio, foi repórter do Última Hora, publicação de grande circulação e repercussão entre os anos 1950 e 1960. Ficava responsável pelas ocorrências policiais da Boca do Lixo, região de bares e prostíbulos do Centro da capital. Para obter qualquer informação, valia-se de estratégia curiosa: captava as entrevistas em gravador escondido em uma caixa de sapato.

A gráfica do diário também rodava jornais de bairro de toda São Paulo. Os pedidos eram tantos que um grupo da Penha, Zona Leste, resolveu abrir outra em Santa Cecília. Entre eles estava Francisco Cantero, o “Paquito”, grande amigo de João Roberto. Foi ele quem ensinou ao então repórter a arte de diagramar, ainda no tempo dos tipos móveis. Juntos, fundaram a Gazeta Penhense, que circula há quase 60 anos, além de ajudar na criação de outras pela cidade.

Não bastasse o rádio e o circo, o cinema era outra grande paixão. A carreira nas telas começou precocemente, quando, aos 12 anos, foi protagonista no filme “A Herança do Padre José”. Ao longo da vida, produziu e dirigiu outros como “O Ladrão de Galinhas”, “A Filha do Cangaceiro”, “ E a vaca foi pro brejo” e “Herança Sagrada”. E foi a sétima arte a responsável por João Roberto parar em Arujá e, sem querer, criar o primeiro jornal do município.

Locação para filmagens deu origem ao Jornal de Arujá

Produtor de renomado diretor de cinema, João foi incumbido, muito a contragosto, da missão de fazer um documentário sobre o meio rural. O problema é que ele não tinha local para gravá-lo. O ano era 1971 e o acaso o fez parar em Arujá, em pesquisas para a obra. Informado de uma propriedade na região da Estrada dos Índios, ele descobriu que pertencia ao então prefeito Benjamin Manoel Franco, o “Beijo”. Era necessário pedir autorização dele para usá-lo.

Até aquele momento, os moradores só sabiam dos atos dos poderes em editais fixados na entrada da antiga prefeitura e que ficavam por pouco tempo. Era necessário um meio para divulgá-los para mais pessoas. João contou ao mandatário que também produzia jornais, como o da Associação Comercial e Industrial de Guarulhos, que era responsável na época. O prefeito fez uma proposta: a prefeitura ajudaria, com os editais, a criar um. Caberia só a João Roberto a parte jornalística, alimentando-o com informações do cotidiano arujaense.

Assim nascia o Jornal de Arujá, cuja a edição número um é datada de 21 de julho de 1971, com dez páginas e periodicidade mensal. A primeira grande dificuldade de João era a desconfiança da população. Muitos acreditavam que era desnecessário o jovem município ter um jornal. Outra, era encontrar anunciantes que bancassem a impressão, realizada na gráfica de um judeu polonês do Brás, em São Paulo, pois eram poucos os comércios existentes.

Com o passar dos anos, porém, o Jornal de Arujá ganhou importância. As primeiras edições, de acordo com João Roberto, tinham tiragem média de 1.200 exemplares, mas rapidamente subiu para mais de 2.000, devido à intensa procura. Joaquim Wolff Neves, amigo dele, vindo do jornal O Estado de S. Paulo, ficava na incumbência de escrever as matérias. O então vereador, Oswaldo Barbosa Coutinho, cedeu o escritório dele na Rua Monteiro Lobato para ser a primeira redação.

Ainda nos anos 1970, o jornal se torna quinzenal. Nas palavras de João, François Marie Redet, prefeito eleito em 1972, incentivou a mudança. Com o slogan “O pioneiro a serviço de Arujá”, o jornal começou a década seguinte distribuído em quatro cidades. Outra inovação era a substituição da impressão por tipos móveis, a linotipo, pelo fotolito, em chapas de alumínio, sendo um dos primeiros da região a adotar o formato. O primeiro nome da empresa, Editora Silvana, homenageava a primogênita das três filhas que o ajudava no dia a dia. Inclusive, naquela época, ocorreu fato curioso: o jornal saía da gráfica para a casa dele, em Guarulhos. Ele conta que, por três vezes, a remessa foi despachada para o Guarujá. Explica-se, pois, já havia a confusão de nomes com a cidade do litoral. No meio da década de 1980, a redação muda-se para a Avenida dos Expedicionários, onde hoje é o “mini shopping”.

Mesmo com a chegada de outros títulos, o Jornal de Arujá era o que mais tinha a simpatia do povo. Meninos entregavam os exemplares pelas ruas. As que iam para as cidades próximas, conta João, eram feitas em uma Variant. “João do Jornal”, como ficou conhecido, seria agraciado com o título de cidadão arujaense, em 1986, por iniciativa da Câmara Municipal. Ele também criaria outros dois jornais: o Estampa, em Itaquá e o Jornal de Santa Isabel.

Entretanto não foi só de flores a trajetória do “João do Jornal”. Calotes e prejuízos eram rotina, isso sem contar os políticos que usaram o órgão como palanque para fins eleitorais. Em 1996, após quase 25 anos de dedicação, ele decide vender o Jornal de Arujá aos atuais proprietários, Sandra Regina e Nelson Cortês. Desde então, vive na mesma casa que adquiriu nos tempos da Rádio Difusora, no bairro guarulhense da Ponte Grande. A filha, Silvana, mora próxima e cuida do pai, sobretudo após ele ficar viúvo, em 2019.

Apesar de não ir com a mesma frequência, João só tem boas recordações de Arujá. Quando chegou, diz que era apenas um lugar aconchegante e por isso ele se “assusta” com o progresso vertiginoso que a cidade teve. Do jornal que ajudou a criar, ainda nutre o amor que o pai tem pela sua criatura. Sente saudades da rotina, exceto a interferência dos políticos. Tanto que estaria disposto a ajudá-lo na condução, inclusive sugerindo melhorias na parte visual e gráfica.

Ser dono de qualquer veículo de comunicação no Brasil, relevância a parte, é ter que lidar com obstáculos infindos. Contudo, o orgulho de ver o sonho se tornar realidade suplanta os problemas. É com esse espírito que João Roberto Cardoso, ou “João do Jornal”, sente orgulho pelo Jornal de Arujá, nascido do acaso, chegar ao cinquentenário. O futuro da comunicação é incerto, mas se depender da credibilidade construída desde aquela primeira edição, em 1971, o jornal que surgiu de um filme ainda será por muito tempo a testemunha ocular do progresso arujaense e de sua gente.

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